FEITIÇOS: SIMPLES SUPERSTIÇÃO OU REALIDADE DEMONÍACA?
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| Xilogravura no frontispício das publicações do Doutor Fausto (início do século XVII), retratando-o como magista invocando Mefistófeles |
"Não deis ouvidos aos vossos profetas, nem aos adivinhos, nem aos sonhadores, nem aos agoureiros, nem aos magos — porque eles vos profetizam a mentira!" (Jeremias XXVII, 10).
Há muito tempo o homem se interessa pelo mistério. O medo e a curiosidade tendem a instigá-lo para sua descoberta. Por isso, vários são os motivos que levam alguém a temer ameaças em tom "magístico". Assim, no presente texto não se fará um apanhado histórico, mas de interesse cultural. Segundo Kloppenburg O. F. M., o termo "magia" designaria "a pretensa arte de evocar os espíritos com o fim de colocá-los à disposição ou ao serviço do homem, para efeito de um trabalho a favor ou contra ele. [No "baixo espiritismo"] se for a favor será magia branca (Umbanda), se for contra será magia negra (Quimbanda)" [1]. Pode-se dizer, por conseguinte, que "Magia é a pretensão de obter efeitos sobrenaturais com meios naturais" [2]. Nesse contexto, "Magia nunca é 'pedir favores'. Nunca é 'submeter-se aos deuses', isso pertence à religião [...]. Magia seria a pretensão de o homem submeter a si os deuses com ritos ou técnicas. Magia é heresia, impossibilidade, pois pretende com técnicas naturais dominar o sobrenatural [...]. Por isso os supersticiosos não pedem, pretendem dominar os deuses" [3]. (Já fora tratado noutra oportunidade das definições modernas entre os ocultistas e sua relação com o que nos é psíquico - https://veritascultura.blogspot.com/2022/08/wicca-os-ingredientes-do-caldeirao-da.html. Fecho o parêntese.).
Kloppenburg esclarece a todos os fiéis católicos da seguinte maneira, a saber:
"É pecado de heresia querer aplicar meios puramente naturais com o fim de obter efeitos não naturais ou preternaturais [...]. Os sete sacramentos são sinais sensíveis (meios naturais) para produzir efeitos sobrenaturais, mas isso por instituição e determinação especial de Deus; é verdade de fé que os Sacramentos da Nova Lei são sete, nem mais nem menos (Dz. 844). Afirmar que além desses sete sinais ou meios naturais há outros para conseguir efeitos não-naturais, seria sustentar a existência de outros sacramentos (ainda que fossem "sacramenta diaboli"). E isso é heresia" [4].
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| Oscar Gonzáles Quevedo S. J. |
"Não fogem da heresia, explica o autor, dizendo que não é propriamente o feitiço que realiza o prodígio: 'Os maravilhosos efeitos não são causados pelos sinais mágicos, senão só pelo poder do diabo, POR OCASIÃO E EM RELAÇÃO COM OS SINAIS'. Ora, também nos sacramentos não é propriamente o sinal, é Deus quem outorga a graça que esses sinais significam. A heresia está em considerar que os sinais mágicos podem ser ocasião eficaz para que intervenha o demônio e precisamente de acordo com o que o sinal significa" [6].
"Uma das práticas que mais caraterizam os trabalhos do Espiritismo de Umbanda, por fazer parte integrante do seu ritual, qualquer que seja o nível moral do grupo, centro ou tenda em que os mesmos se realizem, é o que geralmente se conhece pela curiosa designação de "pontos". Um exame atento, porém, do panorama universal, em torno dos vários sistemas filosóficos, e do ritual pelo qual se rege cada uma das numerosas religiões em que a humanidade se divide, demonstrar-nos-á que cada uma delas possuo a sua modalidade peculiar de invocação aos seus maiores do Espaço, sempre externada em vibrações sonoras" [9].
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| Frei Boaventura Kloppenburg O. F. M. |
Nesse ínterim, Kloppenburg insiste que, por sua vez, "constantemente a magia ou qualquer outra forma de práticas ocultistas é severamente condenada na Sagrada Escritura".
"Os profetas, diz nosso autor, a atacam e ridicularizam, principalmente quando se referem à magia dos egípcios e babilônios (cf. ls 47, 12 ss; Dan 1, 20; 2, 10-12; Sab 17, 7). Mas nenhuma única vez é o demônio o motivo alegado por tão rígida atitude de proibição. Não se condena a magia porque desconfiam aí de alguma ação diabólica. A razão é outra: "[...] para que vos não contamineis por meio deles: Eu sou o Senhor vosso Deus" (Lev 19, 31); "porque o Senhor abomina tôdas estas coisas" (Deut 18, 13); porque afasta o homem de Deus (Deut 13, 2-6); porque desvia da Lei e do Testamento (ls 8, 19-20), porque o mago "perverte os caminhos retos do Senhor" (Atos 13, 10); porque a magia faz parte das "obras da carne" (Gál 5, 20). Estes são os motivos indicados nos livros bíblicos. Não o demônio diretamente, não o pacto com o demônio, não a invocação de satanás. O que os livros do Velho Testamento querem é confiança no Senhor. "Quando os profetas nos seus oráculos se dirigem às nações pagãs, a magia é visada com palavras que exaltam o poder de Javé sobre todos os adivinhos, sobre todos os magos e práticas de encantamento, em que os pagãos punham sua esperança. O ataque chega a atingir o sarcasmo, como p. ex., em Is 19, l-3; ll-13, contra o Egito. Mais fortes ainda são as sátiras do profeta contra a Babilônia (ls 44, 25;47, 12-13; Jer 50, 35-36; 51, 57)".
Torna-se indubitável, outrossim, que está-se diante de uma querela mui antiga, mas concomitantemente hodierna, sobre a qual conclui o autor, a saber:
"O verdadeiro motivo de condenação da magia, indicado pela Bíblia, é, pois, este: A magia é uma injúria à soberana independência e transcendência de Deus e aos seus direitos exclusivos de criar, revelar, fazer milagres e santificar os homens. A magia tende a rebaixar Deus ao nível da criatura e abre os caminhos para o politeísmo. E porque a magia é um aviltamento da soberania divina, por isso ela é também uma degradação da dignidade racional do homem, é deformação do autêntico sentimento religioso" [10]. Ademais, alhures o frade arremata:
"Os fatos, que se dizem feitos pelos magos com o socorro do demônio, não merecem fé: são contados principalmente pelo povo ignorante, que não tem a desteridade necessária para julgar a respeito e vogam nos lugares em que 'parum scitur de litteris'; semelhantes fatos são todos falsos e fingidos; ou se reais, não passarão de efeitos meramente naturais ou de imposturas humanas" [11].
É por isso, portanto, que "[...] não devemos cair no demonismo, que vê o diabo a causa de todos os males que nos afligem. É certo que muitos males antigamente iam por conta do diabo recebem hoje uma explicação adequada e satisfatória sem nenhuma necessidade de intromissões diabólicas. Na Gaudium et Spes constata o Concílio Vaticano II que hoje 'o espírito crítico mais agudo purifica [sic] a vida religiosa de uma concepção mágica do mundo e de superstições ainda espalhadas' (n. 7c); e que 'muitos bens que o homem aguardava antigamente, sobretudo de forças superiores, hoje já os consegue pelo trabalho próprio' (n. 33b). A ciência desmistificou e dessacralizou os fenômenos da natureza e baniu os deuses, os demônios e as superstições. Já não sentimos nenhuma necessidade do demônio como hipótese para explicar a origem e a existência do mal no mundo. Na medida em que progridem nossos conhecimentos científicos sobre a natureza e o homem, diminui o recurso ao exorcismo, que se torna cada dia menos indicado e mais suspeito" [12].
Em suma, conforme o Catecismo da Igreja Católica (§2116-7) deve-se relacionar a magia à superstição, sem tratá-la como objeto de intervenção externa; talvez pelo mesmo motivo, à sua época, Agrippa expressou-se coerentemente quando intitulou tais práticas de "vaidades" para retratar-se de costumes de outrora [13]. Por sua vez, outrossim, o relato de Santo Afonso endossa: "Foi Manes o criador da seita dos maniqueus... Estudou, em especial, a magia e, para ganhar fama, se empenhou em curar o filho do rei da Pérsia, que já havia sido desenganado pelos médicos. Mas, tendo o menino, com todos os seus feitiços, morrido nas suas mãos, foi encarcerado e teria sido morto se não tivesse corrompido os guardas para fazê-lo fugir da prisão" [14].
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[1] cf. KLOPPENBURG OFM. Boaventura. A Umbanda no Brasil, Vozes: Petrópolis, 1961, p. 66 ss.
[2] cf. QUEVEDO S. J. Oscar Gonzáles. Antes que os Demônios Voltem. Edições Loyola: São Paulo, Brasil, 1989, p. 303.
[3] cf. QUEVEDO S. J. Oscar Gonzáles. Milagres: a ciência confirma a fé. 2a.ed. Edições Loyola, São Paulo, 1996, p. 281.
[4] cf. KLOPPENBURG O. F. M. Boaventura. O Espiritismo no Brasil. Editora Vozes: Petrópolis, 1964, p. 276.
[5] cf. QUEVEDO S. J. Oscar Gonzáles. Antes que os Demônios Voltem. Edições Loyola: São Paulo, Brasil, 1989, p. 162.
[6] cf. NOORT. G. Van. Tratactus de Deo Creatore, Amesterdam, 1920, p. 93; apud op. cit., p. 163.
[7] cf. DE CAMPOS. Felipe. Umbanda: a religião dos Mistérios, ed. Autor, 2014, p. 24.
[8] cf. KARDEC. Allan. Obras póstumas [tradução de Guillon Ribeiro da 1ª edição francesa de 1890]. – 41. ed. – 1. imp. – Brasília: FEB, 2019, p. 42.
[9] cf. cf. DE UMBANDA. Primeiro Congresso. Trabalhos apresentados ao 1° Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, reunido no Rio de Janeiro, de 19 a 26 de Outubro de 1941 [Aprovação: Federação Espírita de Umbanda], ed. Jornal do Comércio, 1942, p. 74.
[10] cf. KLOPPENBURG O. F. M. Boaventura. A Umbanda no Brasil: orientação para católicos [Coleção: Vozes em Defesa da Fé - Estudo, n. 02], ed. Vozes: Petrópolis, Rio de Janeiro, 1961, pp. 165-6.
[11] cf. KLOPPENBURG O. F. M. Dom Frei Boaventura., citando RODRIGUES. Dom Manuel do Monte. In "A Irrealidade da Magia", Revista Eclesiástica Brasileira, vol. XXI, fasc. 2, Junho de 1961, p. 360.
[12] cf. KLOPPENBURG, O. F. M. Boaventura. O Espiritismo: orientação para católicos. 9a. ed. Loyola, 2014, p. 199.
[13] cf. "Mas sobre Magick (magia) eu escrevi enquanto eu era muito jovem três grandes livros, que eu chamei de Of Ocult Philosophy [Três Livros de Filosofia Oculta], em que o que era então por curiosidade de minha juventude errôneo, agora sendo mais aconselhado, estou disposto a ter retratado, por essa retratação [que faço agora]; antigamente, gastei muito tempo e custos nessas vaidades. Por fim, tornei-me tão sábio que fui capaz de dissuadir outros desta destruição", in AGRIPPA. Henry Cornelius. Três livros de FILOSOFIA OCULTA OU MÁGICA, LIVRO III - MÁGICA CERIMONIAL. -- Anexo: "A Censura, ou Retração de Henry Cornelius Agrippa, a respeito da Magick, após sua declamação da vaidade das Ciências e da excelência da palavra de Deus", Anno MDXXXIII. No mês de julho -- http://www.esotericarchives.com/agrippa/op3.htm#apx4.
[14] Cf. DE LIGÓRIO. Afonso Maria. História das Heresias e suas refutações, III, 4.
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