WICCA: OS INGREDIENTES DO CALDEIRÃO DA BRUXARIA MODERNA
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| Bruxas Sabá de Francisco de Goya (1789). |
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A Wicca, enquanto religião, está apoiada sobre três problemáticas: histórica, doutrinária e prática. Esse quadro, entretanto, não pode ser apresentado sem se recorrer às fontes primárias nas quais se embasa sua crença e filosofia. Não se pretende entrar nas querelas etimológicas, por enquanto. Dessa forma, urge apresentar-lhes por meio da realidade inegável e de seus expoentes mais respeitáveis o que consiste sua relevância objetiva.
Com efeito, fazendo uso dos termos "Antiga Religião" ou "Bruxaria Moderna", a prática wiccaniana não obstante sua apresentação como sobrevivente do período pré-cristão ser comum, não deixa de ser imprecisa ou falsa. Para Charles Leland, "pode-se dizer que a Bruxaria é conhecida como 'la vecchia religione'" [1]. Sem rebuços, Claudiney Pietro afirma: "Gerald Gardner, considerado o pai da Bruxaria Moderna, decidiu revelar [sic] que as práticas da Bruxaria da Europa antiga não haviam morrido [...]" [2]; isto significaria que ele deu origem ao movimento de reavivação da Bruxaria, mas não criou a religião que chamamos de "Wicca", para Pietro. Semelhante afirmação faz Gary Cantrell, a saber: "Embora não haja dúvida de que Gerald Gardner deva receber o crédito por ter levado nossa religião para a vista do público no século XX, ele não inventou a Wicca [...] A religião que conhecemos como Wicca já tinha milhares de anos antes que qualquer dessas pessoas [Gardner, Crowley e Murray] entrasse em cena" [3].
Porém, tais sentenças não se ajustam à realidade. Decerto, reconhece Pietro: "A maioria dos estudiosos, no entanto, afirma que a Bruxaria não sobreviveu a ponto de se tornar hereditária"[4]. Faz-se mister expor que Gardner estava apoiando-se na frágil teoria da sra. Murray; na obra "Wicca, A Bruxaria saindo das Sombras" [5], de Millennium, lê-se o seguinte: "Gardner apoiava sua modernização da bruxaria clássica nos argumentos da antropóloga Margaret A.Murray". Destarte, é indubitável que ambos tinham uma relação intrínseca, porque sua obra "A Bruxaria Hoje", quem no-la introduz é Murray. Ademais, em "O Significado da Bruxaria" [6], referindo-se à teoria de tal autora, admite-o: "Eu pertenço a essa terceira escola, porque suas descobertas estão de acordo com minha própria experiência [sic], e porque é a única teoria que me parece fazer sentido à luz dos fatos históricos [?]". De sua experiência não se duvida, uma vez que estamos diante de um homem supersticioso, como ele diz [7]: "sou assumidamente supersticioso".
Malgrado, os fatos históricos desmentem essa teoria e a superstição. Com o passar da poeira de seu sucesso à época da publicação da hipótese de Murray, Mircea Eliade aponta que tanto "os documentos com os quais ela escolheu, nem os métodos empregados em sua interpretação são convincentes", quanto "quase tudo na teoria de Murray era falso" [8]
Além disso, como expõe Jeffrey Russel e Brooks Alexander, é sabido que ela "estava completamente enganada e embaraçosamente errada" [9]. Nesse contexto, "[a bruxaria moderna] consiste [...] de conceitos, afirmações e terminologias, elaboradas nos duzentos anos entre o final do iluminismo e o começo do século XXI" [10]. Pode-se dizer, portanto, que "a Wicca foi essencialmente inventada por Gardner" [11], o qual "recorreu a uma variedade de fontes, algumas destas pessoais e subjetivas" [12]. A mais importante encontra-se na figura de Aleister Crowley, o qual iniciou Gardner na Ordo Templis Orientis [13]. É preciso dizer algumas coisas. Crowley, segundo Hajo Banzhaf e Brigitte Theler, "levando uma vida desregrada de boêmio [...] sempre envolvido em escândalos sexuais, uso de drogas" [14] foi iniciado na Golden Dawn a despeito da desconfiança de seus membros [15], e, depois da expulsão, adentrou na Ordo Templi Orientis e fundou sua própria seita [16].
Em tal ambiente, Crowley pôde apresentar sua desordem sexual ao molde de religião a que chamou de Thelema; o que não deixou de gerar intrigas, todavia [17]. Além do mais, copiou outrossim, os rituais da Golden Dawn, a exemplo de seu "Rubi-Estrela" [18] em comparação ao Ritual Menor de Invocação do Pentagrama, fruto do ambiente nada amigável no qual estava inserido [19].
Voltemos à Wicca. De acordo com Pietro, "Gardner dizia ter sido iniciado em um Coven de Newflorest, na Inglaterra em 1939" [20]. Mas isto não concorda com os fatos. E se Gardner, que foi iniciado por Crowley, não aprendeu com "bruxas sobreviventes" o que ele dizia ser "Antiga Religião", segue-se que foi Crowley sua origem, visto que assim como o próprio Crowley, que tomou seus rituais da Golden Dawn, da qual foi expulso posteriormente, Gardner consequentemente deu prosseguimento ao exemplo que lhe foi dado. Tal quadro fica ainda mais indubitável se se atentar ao fato de que Doreen Valiente, principal colaboradora sua, identificou um peremptório embuste. É que o conteúdo atribuído à Wicca, por Gardner, "tinha sido tomado de fontes que ela [Valiente] era capaz de identificar -- em particular, de livros escritos por Aleister Crowley [...] pois ele [Gardner] se vira forçado a preencher as partes que lhe faltavam [...]" [21].
Entretanto, Valiente não passa incólume às fraudes, uma vez que ela "apoiou os esforços de Gardner para afirmar a antiguidade de sua religião", como quando ele "a apresentou a jornalistas como membro de uma das tradicionais famílias de bruxas [...]" [22]. Com esse intuito, "quando Valiente começou a reescrever o Book of shadows [de Gardner] não apenas eliminou traços que evidenciavam a influência de Crowley, mas também os substituiu por materiais que remodelavam a Wicca à imagem e semelhança daquela antiga (e também imaginária) religião britânica" [23]. Apesar da explicação de Pietro [24], dando-a a nível de justificativa, que a atribuição da Wicca à pena de Gardner tratar-se-ia de um produto dos pagãos reconstrucionistas, ela não deixa de ser verdadeira ante os dados históricos.
Nesse ínterim, a balbúrdia histórica intrínseca à Wicca torna-se indubitavelmente fator primordial do que se lhe é doutrinário: a contradição. Para Cantrell, por exemplo, "Todos nós [wiccanianos] temos diferentes entendimentos e interpretações de muitos aspectos da Antiga Religião, e cada uma dessas interpretações é, por definição, a correta para aqueles que a abraçam" [25]. Da mesma opinião são Evan John Jones e Doreen Valiente, a saber: "Ninguém deve dizer: 'Eu sigo a verdadeira tradição. O seu caminho está errado'. Esta afirmação nega a natureza universal da Deusa e é uma tentativa de confiná-la à sua própria imagem e àquilo que você [wiccaniano] pensa que ela deveria ser" [26]. Não surpreende tais afirmações, porquanto a diversidade wiccaniana é infindável e, por conseguinte, imbuída de embustes no mais das vezes. Segundo Claudiney Pietro, Robert Cochrane (pseudônimo), de quem Valiente foi amiga pessoal, considerando-o "mais do que um irmão" [27], era simplesmente "auto-intitulado bruxo hereditário" [28].
Fenômeno invariavelmente comum neste ambiente neopagão. Na tradição alexandrina, ademais, "Alex Sanders dizia ter sido iniciado por sua avó em 1933 quando era uma criança. A fraude da história posteriormente foi descoberta, mas mesmo assim [sic] a Tradição Alexandrina foi uma das mais importantes influências na construção da Wicca" [29]. Atribuição fraudulenta análoga à de Gardner, como se viu. A propósito, Sanders teve acesso ao Book of shadows de Gardner e o editou, reorganizando-o, para apresentar ao público "como herança [da sua] avó" [30]. É necessário salientar que após a cisão com Gardner, Valiente "seguiu um caminho separado [dentro da bruxaria]" [31].
Ainda conforme Pietro, "Mary Nesnick fundou um novo caminho de Wicca que reúne ensinamentos de ambas Tradições [gardneriana e alexandrina]". Poder-se-ia fazer uma lista ad nauseam, porque "novas tradições são criadas e fundadas diariamente" [32]. No Brasil, a Tradição Diânica tem um papel muito curioso, de culto às deusas da "Terra Brasilis" [33]. Além disso, notável contradição vê-se no que tange à sexualidade. Para Starhawk [34], "a sexualidade pode se expressar livremente". Não obstante, "A Wicca Gardneriana também excluía deliberadamente os homossexuais; o próprio Gardner havia enfatizado a importância da polaridade masculino/ feminina dentro da Wicca, o que significou a adoção de uma postura ativamente contra homossexual no interior do seu sistema" [35].
Do ponto vista prático, a Wicca repousa sobre os ombros do que intitulam de "magia". É de mister importância abordar tal querela, pois há quem confine-se às práticas, por si mesmas, apesar da história e da doutrina que o trai. A despeito disso, à medida que se compreende seu conceito no âmago da religião, torna-se perceptível sua invalidade inexorável. Após afirmar que a magia não trabalha com o miraculoso, o que viola as leis da natureza, Doreen Valiente ensina: "Aleister Crowley definiu magia como: 'a ciência e a arte de causa e mudança que irá acontecer em conformidade com a vontade' [...]".
Depois de citar a definição de Liddel Mathers (ocultista, que também fora membro da Golden Dawn), que não difere desta, ela diz: "Essas definições se aplicam tanto para a magia das bruxas como para outras formas de magia" [36]. Na mesma linha seguia o supersticioso Gardner, a saber: "As crenças mágicas, entre as quais bruxaria é uma forma, baseiam-se no fato de que poderes invisíveis existem, e que, através da realização de um ritual apropriado, estes poderes podem ser contatados e influenciados e até mesmo forçados e persuadidos [sic] a ajudar uma pessoa de algum modo" [37]. Tal situação é embaraçosa, uma vez que se pressupõe o conhecimento de meios desconhecidos [sic] para manipulação da realidade, por parte do praticante. Ora, entre o astral e o psicológico a linha seria tênue: impossível de ser separada. Insista-se em mais uma autoridade para mostrá-lo. Scott Cunningham diz que "a magia é a prática de utilizar energias naturais (ainda pouco compreendidas) para efetuar mudanças necessárias" [38] e alhures "magia é natural" [39].
Na tentativa de apaziguar o embaraço, em outra obra, diz sem precedentes que "[A Wicca] trata-se de uma religião que engloba magia, recebendo-a como uma oportunidade para sintonizar-se com a energia divina [?], da terra e humana [sic]" [40]. Nesse contexto, "não há nenhuma indicação de que a magia aja de nenhuma outra forma a não ser por meio das forças da natureza" [41]. Dessa forma, está-se falando do âmbito natural; e então, se é campo de pesquisa, como escapar da explicação do funcionamento das práticas mágicas, para o praticamente -- pois ele pensa que "funciona" --, por meio da sugestão que ele mesmo tende a induzir-se pela de interpretação "mágica" (supersticiosa), visto que dela está imerso? Aqui o silêncio é sepulcral, por parte dos "bruxos". E não poderia ser diferente.
Cientificamente, conforme Arnold, "os melhores sujeitos hipnotizados foram capazes de uma abstração ou de devaneios profundos que quase correspondem ao êxtase; ou eles puderam pôr a si mesmos para dormir -- até antes mesmo de terem sido hipnotizados [sic]" [42]. A sugestão tem valor decisivo aqui e a predisposição para ela mais ainda. Forçados pela evidência, concede o casal Farrar: "Não é sempre fácil separar estes dois efeitos -- o psicológico e o astral -- em dois compartimentos diferentes; inclusive, eles se sobrepõem bastante, e algumas pessoas colocariam mais ênfase em um do que no outro, ou mesmo negariam o efeito [mágico], dizendo que nada mais é do que algo inexistente" [43]. A propósito da hipnose, ela é o método "mais poderoso" para os wiccanianos a fim de recordar das encarnações passadas [44]. Coincidência demais, não? Que decida o leitor.
De qualquer modo, a eficácia de qualquer rito ou consagração "mágica" torna-se sujeita à hipótese (supersticiosa) de quem o faz; e, conseguintemente, "muitas bruxas e ocultistas admitirão, se forem honestos, que eles começaram apenas estando realmente certos da eficácia psicológica da consagração [...]" [45]. Sugestão pura. A única explicação de se recorrer à magia, conforme entendem as bruxas, seria limitar a realidade à interpretação do praticante; algo sem sentido, repita-se, mas que Gardner faria indubitavelmente [46].
Portanto, faz-se necessário admitir a insuficiência histórica wiccaniana, por estar embasada em um pressuposto improvável e fraudulento, em uma doutrina incerta à luz do próprio quadro exposto e em uma prática insustentável, visto que não corresponde à realidade, mas depende da interpretação imbuída de superstição e errônea dela. E, dessa maneira, não se pode aderi-la em sua totalidade sem antes ignorar dados evidentes e objetivos, apegando-se às subjetividades ordinárias de interesse pessoal.
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REFERENCIAS
1 - Aradia: O Evangelho das Bruxas. 2. ed. Madras: São Paulo, 2016, p. 9
2 - Wicca Para Todos, Alfabeto, 2009, p. 9
3 - Wicca: Crenças e Práticas, Madras: São Paulo, 2002, p. 28
4 - Idem, p. 10, n. 2
5 - cf. Madras Editora, cap. III, p. 15
6 - cf. ed. Madras, SP, 2004, p. 7
7 - cf. A Bruxaria Hoje, Madras, São Paulo, cap. XIII, p. 127
8 - cf. Ocultismo, Bruxaria e Correntes Culturais: ensaios em religiões comparadas -- BH: InterLivros, 1979, p. 61
9 - cf. História da Bruxaria, 2. ed. - São Paulo, Aleph, 2019, p.192
10 - Idem, p. 179
11 - p. 202
12 - p. 201
13 - Cf. Millennium, op. cit., p. 12
14 - cf. Tarô de Crowley — Palavras-Chave, São Paulo: Madras, 2006, p. 13
15 - cf. Chic Cícero & Sandra Cícero, Essencial da Golden Dawn, Madras, São Paulo, 2008, p. 69
16 - Idem, p. 70, n. 48
17 - cf. Hajo Banzhaf & Brigitte Theler, op. cit., p. 12-13
18 - cf. Fernando Aiwass Ligvori, Rituais, Documentos e a Magia Sexual da O. T. O, sem data, p. 67
19 - cf. Israel Regardie, A Golden Dawn. - São Paulo: Madras, 2008, p. 319; Chic Cícero & Sandra Cícero, op. cit., p. 139
20 - cf. op. cit., p. 28; vide também GARDNER. Gerald. A Bruxaria Hoje, Madras Editora, São Paulo, cap. I, p. 16
21 - cf. Russel & Alexander, op. cit., p. 208
22 - Idem, p. 207
23 - Idem, p. 208-9
24 - op. cit., p. 12
25 - cf. op.cit., p. 18
26 - cf. Feitiçaria: Tradição Renovada, Editora Bertrand, Rio de Janeiro, 1992, p. 27
27 - cf. Feitiçaria... op. cit., p. 18
28 - cf. Wicca Para Todos..., p. 25
29 - Idem, p. 26
30 - cf. Russel & Alexander, op. cit., p. 212
31 - Idem, p. 210
32 - Idem, p. 28
33 - cf. Tradição Diânica do Brasil, Práticas de Wicca Brasil: Saberes da Terra Brasilis. -- Brasília: Ed. 7Cores, 2014, p. 15ss
34 - cf. A Dança Cósmica das Feiticeiras: Guia de Rituais à Grande Deusa, Nova Era, 1993, p. 29
35 - cf.Russel & Alexander, op. cit., p. 214
36 - cf. Enciclopédia da Bruxaria. 3. ed. -- São Paulo: Madras, 2019, p. 291
37 - cf. O Significado da Bruxaria, p. 21.
38 - cf. Wicca: guia do praticante solitário. São Paulo: Madras, 2020, p. 24
39 - Idem, p. 25
40 - cf. A Verdade sobre a Bruxaria Moderna [part. II, cap. 1], São Paulo: Gaia, 1998, p.74
41 - cf. Doreen Valiente, Enciclopédia, p. 292
42 - cf. Magda B. Arnold [artigo] Função Cerebral na Hipnose
43 - cf. Janet & Stewart Farrar, A Bíblia das Bruxas: Manual Completo para a Prática da Bruxaria. -- São Paulo: Alfabeto, 2017, p. 263
44 - Idem, pp. 377-8
45 - Idem, p. 264
46 - cf. A Bruxaria, p. 12
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Por Wendel J. Silva.



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