A DEMONIZAÇÃO DE EXU





    É perceptível que muitos praticantes contemporâneos da Umbanda possuem uma visão "romantizada" acerca de Exu, isto é, não faz o bem e o mal. Destarte, a visão demonizada que se relaciona com tal personagem quase sempre é colocada na conta do cristianismo ou da Igreja Católica. Segundo Saraceni [1], Felipe de Campos [2], Cumino [3] ou Ayporê Pery [4] o fenômeno da demonização dá-se por isso ou por ignorância (dos primeiros umbandistas) e influência da catequese católica. Muito conveniente.
    Nesse contexto, para eles, a culpa deve, pois, cair sobre a Igreja direta ou indiretamente. Mas, segundo Alexandre Cumino, aliás, "aceitar a ideia de que Exu é cúmplice, aceitar a ideia de Exu faz o Bem e faz o Mal, é aceitar que ele seja mesmo o demônio, tinhoso, coisa-ruim, trevoso tudo menos Exu de Lei, e, na Umbanda, Exu sempre vem na Lei quando tem lá a liberdade de dar consulta e orientar" [5]. Mas foi exatamente isso que fizeram os primeiros umbandistas. E sem a distinção de Exus "batizados" e "pagãos" (o único a fazê-lo, àquela época, foi Antonio de Alva e, não obstante, admitiu as supostas ações maléficas de Exu [6]). Leal de Souza [7], Aluízio Fontenelle [8], Lourenço Braga [9], José Maria Bittencourt [10], etc. Todos o fizeram. A propósito, para o ilustre Antonio de Alva, "Kiumba ou Exu, portanto, é, a meu ver, um espírito que considero Missionário do Mal, pertencente à categoria dos Espíritos Imperfeitos ou Impuros" [11]. 
    Alva, após relatar sua própria história, afirma: "[...] como também já amava muito ao Diabo (é coisa inata em mim) resolvi interceder em favor do amigo Diabo, o mesmo que, para os umbandistas, tem o nome de Exu, ou melhor, Exu Lúcifer" [12]. E assim sucessivamente se se prosseguir com as citações. Além das atribuições de culpa à Igreja, temos a explicação cultural, conforme Ademir Barbosa [13], mas que não significa que seus praticantes estão incólumes. Pois, além da parte teórica e prática, em sua área simbólica -- conforme o estudioso João do Carmo --: "A Umbanda contribui muito para associar Exu ao diabo, fazendo com que seus filhos o recebam trajando capas pretas e chifres de boi, muito semelhante à indumentária que a imaginação dos artistas da Idade Média concebeu para Satã" [14]. 
    Diante disso, pode-se coligir que tal demonização é mais interna que externa. Convém salientar que essa postura não deve ser vista como se fosse possível evocar o diabo ou um espírito e nem para promoção de discriminação, já que segundo Estêvão Bittencourt, "o demônio, que a Escritura e a fé católica reconhecem, não é Exu nem orixá" [15].




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Fontes: 

[1] Cf. SARACENI. Rubens. "A Umbanda, no seu início, por ter uma forte influência cristã, *teve dificuldade em lidar com o já conhecido e temido Exu da tradição oral nagô, que o descrevia como perigoso e de difícil controle porque ele escapava à regra de procedimento dos outros Orixás" (Orixá Exu: Fundamentação do Mistério de Exu na Umbanda. São Paulo: Madras, 2013, p. 65. 

[2] Cf. DE CAMPOS. Felipe. Umbanda: a religião dos Mistérios, ed. Autor, 2014, p. 18. 

[3] Cf. CUMINO. Alexandre. "[Exu diz sobre si mesmo] Dizem que faço o bem e faço o mal, no entanto, aqueles que assim afirmam não sabem a diferença entre bem e mal entre certo e errado" (Exu Não é Diabo, São Paulo, Madras, 2018, p. 95). 

[4] Cf. PERY. Ayporê. "[...] não existe isso de pedir o mal a Exu. Essa concepção de que Exu tanto faz o mal quanto o bem, contraria qualquer lógica dentro da Umbanda e nos coloca a mercê das forças trevosas. Isso também precisa mudar!" (Umbanda: Mitos e Realidades, ed. Autor: Niterói/RJ, 2008, p. 58). 

[5] Cf. Exu não é Diabo. São Paulo. Madras, 2018, p. 128. 

[6] Cf. DE ALVA. Antonio. "Há Exus que, conhecidos como Exus batizados, praticamente só trabalham para o bem, só praticam o bem, apesar de serem, como o são, Exus. No entanto em sua grande e quase total maioria, os Exus (pelo menos eles) só trabalham para o mal ou, pelo menos, só fazem coisas que, a bem da verdade, não podem ser consideradas aconselháveis ou como boas, muito menos" (O Livro dos Exus: Kiumbas e Eguns, Editora Eco, 1973, p. 151). 

[7] Cf. DE SOUZA. Leal. O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, Rio de Janeiro, 1933, pp. 37-38. 

[8] Cf. FONTENELLE. Aluízio. "ele [Exu] tanto serve para o bem, como serve para o mal" (Exu, 1945, pp. 11-13; apud. CUMINO. Alexandre. Exu não é Diabo, op. cit. pp. 109-10).

[9] Cf. BRAGA. Lourenço. "Todos os espíritos da Lei de Quimbanda possuem Luz vermelha sendo que o chamado, "Maiorial", conhecido no catolicismo como Satã, Satanás, Diabo, Capeta, Lúcifer, Príncipe do Fogo, Tinhoso, Anjo do Mal, etc., possui uma irradiação de luz tão forte que nenhum de nós suportaria sua aproximação. A PALAVRA EXU É CORRUPTELA DE EXU, QUE QUER DIZER 'ANJO DECAÍDO' [destaques nossos]" (Umbanda e Quimbanda, 1942, vol. I, cap. IV; apud. CUMINO. Alexandre. História da Umbanda. São Paulo: Madras Editora, 2015, Anexo 6, p. 372-3).

[10] Cf. BITTENCOURT. José Maria. No Reino dos Exus, Pallas, 2004, pp. 28; 59; 62; 63-4; 67-8. 

[11] Cf. DE ALVA. Antonio. Idem..., p. 18. 

[12] Cf. Idem, Ibidem, p. 122. 

[13] Cf. JÚNIOR. Ademir Barbosa. Curso Essencial de Umbanda, ed. Universo dos Livros, São Paulo, p. 98.

[14] Cf. DO CARMO. João Clodomiro. O que é candomblé, Coleção Primeiros Passos, Editora & Livraria Brasiliese, 1987 [Ebook, 2017], p. 21.

[15] Cf. BITTENCOURT, E. Católicos Perguntam. São Paulo: Palavra & Prece, 2018, p. 81.
 

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