TRAÇOS DE CULTO NOS CANDOMBLÉS


 





É curioso que corriqueiramente se atribua idolatria ao culto dos Candomblés brasileiros pela utilização de imagens católicas ou próprias. Isso, obviamente, vem carregado de uma amálgama sui generis que não se pode rastrear a origem por fonte primária. Desse modo, torna-se simplesmente popular não obstante esteja à margem do culto e da própria literatura relativa. Faz-se mister explicitar, porém. Conforme Roger Bastide, 


O próprio candomblé como grupo humano é uma imagem da sociedade divina. As relações que nele se tecem entre os membros refletem as relações existentes entre os Orixá (BASTIDE, 1978, p. 242).


Trata-se de conhecido o fato de que na África diversos eram os Orixás cultuados. Daí que neste culto não há mister imprescindível de imagens. Entretanto, quando há sua participação, os "ícones remetem ao Orixá e/ou suas características" (JÚNIOR, 2013, p.31).


Além disso, lendo atentamente a literatura etnográfica pode-se depreender o monoteísmo próprio dos Candomblés. No século XX, a despeito das acusações de politeísmo, a existência de uma única divindade suprema indubitavelmente se mostra como fenômeno de culto intrínseco à religião, isto é, "neles sempre se admitiu a existência de um ser que os nagôs chamavam Olôrún" (CARNEIRO, 1977, p.22). 


Nesse contexto torna-se possível compreender a função dos Orixás. Relacionados à natureza, como os elementos -- terra, fogo, água e ar -- os Orixás desempenham função intermediária. Não entraremos no que diz respeito ao sincretismo com o catolicismo, entrementes, deve-se defini-los a partir de sua função, ou seja, por sua vez, "os orixás são agentes divinos, verdadeiros ministros da Divindade Suprema" (JÚNIOR, 2013, p.29). Nos Candomblés,


Todas as qualidades dos deuses das religiões universais, como o cristianismo e o maometismo, são atribuídas à suprema divindade, que não tem altares, nem culto organizado, nem se pode representar materialmente (CARNEIRO, 1977, p.23).


Demais, há outro fator peremptório que na discussão se prescinde. Ora, é que na África não há representação antropomórfica de divindades. Os "ôxés" -- figuras de barro ou madeira -- não representam divindades, Orixás, mas sim seus possuídos ou "cavalos". É por isso que são reverenciados por meio de figuras (CARNEIRO, 1977). Roger Bastide confessa que "o ponto central do culto público é a crise de possessão" (BASTIDE, 1978, p.17), embora seja ela apenas uma das partes da vida dos Candomblés, trata-se da qual mais convida o vulgo. Representando ancestrais de forma indireta, no entanto, quanto às divindades propriamente ditas,



O que verdadeiramente as representa são a sua moradia favorita -- pedras, conchas, pedaços de ferro, frutos de árvores -- ou, secundariamente, as suas insígnias. A única representação direta das divindades de dá quando os crentes, por elas possuídos, lhes servem de instrumento (CARNEIRO, 1977,p.24). 



Isto demonstra, portanto, que a despeito das concepções estranhas ao culto candomblecista, pode-se concluir pela presença imprescindível da divindade que se apossa do adepto, da representação direta deste processo, e da ideia de culto indireto aos ancestrais.



REFERÊNCIAS


BASTIDE, R. O candomblé da Bahia: rito nagô. 2.ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.


CARNEIRO, E. Os Candomblés da Bahia. 5.ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.


JÚNIOR, A. B. Para entender o candomblé. São Paulo: Universo dos Livros, 2013.


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