Sobre a alma
Sobre a existência da alma e sua imortalidade.
Nem o corpo e nem a alma são seres separadamente. O ser real é o composto; e este, por sua vez, está unido em si mesmo. O corpo só está em ato (ou seja, o é propriamente), porque está animado; e a alma, só o é, porque anima. Com efeito, ela é aquilo pelo qual o corpo animado é o corpo animado.
Platão, no Fédon, examina algumas objeções dos que negam à alma o caráter substancial. Para estes, a alma não seria nada além dos elementos que constituem o corpo. Porém, a alma longe de estar em harmonia com o corpo, está sempre discordando deste.
"O corpo sente ardência e sede, mas a alma, ao contrário, instiga-o a não beber; sente a fome, e a alma instiga-o a não comer; e assim em mil outros casos nos quais percebemos que a alma opõe-se às paixões do corpo" (Platão, Fédon, c. 43).
Deve-se, necessariamente, também observar a própria sobrevivência da alma após a morte do corpo, isto é, a realidade que é sua imortalidade. O já citado Platão, partindo da do princípio de que a alma possui ideias de Belo, Bem, Verdadeiro, Justo, Santo, forma seu argumento. Ora, esse conhecimento é alcançado não por meio dos sentidos, mas afastando-se deles. O espírito possui, portanto, uma vida própria, que se desenvolve sozinha, independentemente do corpo. Ao cumprir sozinha sua busca, a alma lança-se em direção àquilo que é puro, eterno, imortal e sempre igual a si mesmo; e sentindo a própria afinidade a isso, ali permanece por todo tempo que lhe é permitido, encontrando paz no seu vaguear. E, posta em contato com tal realidade, permanece ela mesmo constante e imutável (Ibid., c. 27). A afinidade, o parentesco a Ideia, que é eterna, é o fundamento deste argumento.
Santo Agostinho, também embasado no conhecimento da verdade eterna, diz que: "A alma no conhecimento intelectivo atinge a verdade. Ora, enquanto sede da verdade, a alma é imortal, da mesma forma que aquela. Com efeito, se o que se encontra num sujeito é eternamene duradouro, é necessário que o próprio sujeito seja eternamente duradouro. Mas, visto que cada ciência reside sempre num sujeito, é preciso de que a alma dure para sempre. Dado que a ciência é verdade, e a verdade dura para sempre, a alma também dura para sempre, nem se poderá nunca dizer que ela morre" (Solilóquios, II, c. 13).
Mas mais que isso, Santo Tomás, com base no desejo natural que o homem possui de sobreviver à morte e de não morrer jamais explica que: "É impossível que uma tendência natural seja vã. O homem anseia, por natureza, a perdurar perpetuamente. Isso aparece claro pelo fato de que o ser é aquilo que é por todos desejado; o homem pode, por meio do intelecto, perceber o ser, não somente num dado momento (como se realiza hic et nunc), semelhante aos animais irracionais, mas de forma absoluta. Portanto, o homem logra a perpetuidade em seu lado espiritual, ou seja, na alma, pela qual percebe o ser absolutamente e conforme cada momento" (Suma Contra os Gentios, II, c. 79).
Portanto, esta é a resolução do [mais difícil?] problema antropológico à luz da boa filosofia. E, com efeito, o homem permanece uma realidade extremamente complexa.
-- Battista Mondin, in 'Introdução à Filosofia: Problemas, Sistemas, Autores, Obras'., ed. Paulus, 1980, cap. V, pp. 62-80 [resumo adaptado por mim].
Imagem: 'A Alma Humana' (1883) de Luis Ricardo Farelo.



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