DE SWEDENBORG AO ESPIRITISMO





       Emanuel Swedenborg além de cientista, filósofo, místico e teólogo, indubitavelmente se apresenta à história possuindo sua parcela de influência com o Espiritualismo inglês e o Espiritismo francês modernos. Isto porque, como consta, 


Na França, se tornou corrente o uso do termo "espiritismo" para designar o conjunto de práticas nascidas nos Estados Unidos, em 1848, e exportadas para a Europa, em 1852. Tais práticas consistiam em se comunicar com os espíritos por meio de mesas volantes. (DEL PRIORE, 2014, p.41).



       Não obstante a querela terminológica, nascido em Estocolmo, em 29 de janeiro de 1688 e falecido em Londres, no também dia 29, mas de março de 1772, as visões e práticas ascéticas de nosso autor viriam a solidificar diversos princípios modernos, a despeito das poucas vezes nas quais têm seu nome aludido no histórico do Espiritismo, por exemplo, nos cursos das federações (ROCHA, 2019). Entrementes, muito se deve a este nome, como veremos (DEL PRIORE, 2014).

    As visões de Swedenborg permeiam as manifestações espíritas posteriores. Por exemplo, como vidente impressionou a Kant que jovem não soube precisar a veracidade dos fenômenos relacionados ao místico (GIOVETTI, 1994; MUSSO, 1965). Para Ricardo Musso (1965), tal apreço pelo misticismo, entretanto, se deu apenas em 1745 quando Swedenborg prescinde de cargos intelectuais e científicos dos quais tinha responsabilidade para dedicar-se exclusivamente às visões e experiências. Nesse ínterim, as numerosas experiências mesclaram-se a conceitos cristãos já vigentes -- céu e inferno, misericórdia, etc --, além de uma nova prática: a visita de espíritos. Swedenborg acreditava, portanto, 


Que era continuamente visitado por espíritos e que conversava com personalidades como Virgílio, Lutero e Melanchton; e contrariamente ao que outrora se acreditava, ele não via nisto nada de diabólico (MUSSO, 1965, p.254).



    Com o decorrer das experiências faz-se imprescindível suas descrições. Daí que, posteriormente, publica-se "O Céu e o Inferno" com detalhes e referências do próprio autor, no que diz respeito aos detalhes e procedimentos, além das revelações a ele concedidas. Tendo a possibilidade da comunicação com os mortos e a sobrevivência da alma à morte, tem-se portanto um terreno fértil para uma nova revelação. E de fato, alguns de seus discípulos criaram um culto próprio, a igreja Nova Jerusalém, a partir das revelações (MUSSO, 1965; SWEDENBORG, 2002).

     Além disso, Allan Kardec no-lo reconhece como precursor da doutrina pelo codificador exposta. Já nos texto populares da Doutrina Espírita escrevia sobre a importância de Swedenborg no ensino dos Espíritos que ele expunha, mas com reservas. No segundo volume da Revista Espírita em 1859, Allan Kardec resume sua doutrina e traz, ao leitor, uma comunicação do próprio Swedenborg então falecido.



O mérito incontestável de Swedenborg, seu profundo saber, sua alta reputação de sabedoria tiveram um grande peso na propagação dessas idéias, que hoje se popularizam cada vez mais, pois crescem em plena luz e, longe de buscar a sombra do mistério, fazem apelo à razão. Malgrado os erros de seu sistema, Swedenborg não deixa de ser uma dessas grandes figuras cuja lembrança ficará ligada à história do Espiritismo, do qual foi um dos primeiros e mais zelosos fomentadores. (KARDEC, 2000, p. 444).



    O Espiritismo como apresentava Kardec em muito se assemelhava à proposta de Swedenborg. 



Tal revelação moderna, experimental e coletiva desdobrava-se em outras explicações. Primeira: os espíritos eram almas de mortos e apenas deles. Nada de anjos ou demônios. Segunda: o homem era constituído de corpo, alma e uma substância semimaterial batizada de perispírito, que permitia aos defuntos aparecer e entrar em contato com os vivos. (DEL PRIORE, 2014, p.54).



      O conceito de progresso espiritual individual do ser humano que também estava presente outrora (SWEDENBORG, 2002) agora toma caráter de filosofia científica com retoques de religião, mas sem mister da nomenclatura de igreja (KARDEC, 2020). Conta-se que Kardec morreu em 1869, com problemas cardíacos; seu último livro, "A Gênese", aborda à luz da ciência espírita as recentes descobertas da ciência oficial e o que ela relegara à superstição (DEL PRIORE, 2014; KARDEC, 2008). No entanto, dez anos antes, o codificador informava à comunidade espírita internacional que, em sessão na Sociedade parisiense, no dia 23 de Setembro de 1859, teria ele recebido uma comunicação do próprio Swedenborg na qual ele explicava e exortava o novo movimento, como consta na Revista Espírita, a saber:



Meus bons amigos e crentes fiéis. Desejei vir entre vós para vos encorajar no caminho que seguis com tanta firmeza, relativamente à questão espírita. Vosso zelo é apreciado no mundo dos Espíritos. Prossegui, mas não vos descuideis, porque os obstáculos ainda vos entravarão por algum tempo; a vós não faltarão detratores, como também ocorreu comigo. Há um século preguei o Espiritismo e tive inimigos de todos os gêneros; mas tive também fervorosos adeptos, e isso sustentou a minha coragem. A minha moral espírita e a minha doutrina não estão isentas de grandes erros, que hoje reconheço. Assim, as penas não são eternas; vejo que Deus é muito justo e muito bom para punir eternamente a criatura que não tem força suficiente para resistir às paixões. O que eu também dizia do mundo dos anjos, que é o que pregam nos templos, não passava de ilusão dos meus sentidos; acreditei vê-lo, agia de boa-fé, mas enganei-me. Vós, sim, estais no melhor caminho, porque estais mais esclarecidos do que estávamos em meu tempo. Continuai, mas sede prudentes, a fim de que os vossos inimigos não tenham armas muito fortes contra vós. Vede o terreno que ganhais todos os dias. Coragem, pois, porque o futuro vos está garantido. O que vos dá forças é o fato de falardes em nome da razão. Tendes perguntas a dirigir-me? Eu vo-las responderei. (KARDEC, 2000, pp. 444-5).



      Mas é evidente que a codificação mais propriamente saiu no penúltimo livro de Allan Kardec. Lançada em 1869, na obra "Le ciel et l`enfer" -- O Céu e o Inferno -- o codificador apresenta ao público francês uma obra com título análogo àquele proposto por Swedenborg um século antes, em 1758. Ao revisitar doutrinas antigas, Kardec traz a dos espíritos dos quais atribuía comunicação, como doutrina revelada e as reinterpreta. Daí que em breve análise depreende-se sua intenção. Segundo ele,



Todas as religiões admitiram o princípio do destino feliz ou infeliz das almas, após a morte. Ou seja, as penas e gozos futuros, que se resumem na doutrina do céu e do inferno, encontrada em toda parte. Mas a diferença essencial entre essas religiões é a natureza das penas e dos gozos e, sobretudo, quanto às condições que podem levar as almas a merecer umas e outras (KARDEC, 2013, p.20).



      Por fim, conforme posteriormente Conan Doyle observará, consonante a Kardec, pode-as aludir a algumas fraquezas na doutrina de Swedenborg em contraste com o Espiritismo, uma vez que a despeito dos pontos semelhantes, há também disparidades caras (MUSSO, 1965). Mas, evidentemente, fá-lo sem tirar-lhe o mérito das revelações e percepções pioneiras. No primeiro capítulo, assume, 


Uma notícia sobre Swedenborg, do ponto de vista espírita, não pode ser melhor conduzida do que por estas palavras, extraídas de seu diário: “Tôdas as afirmações em matéria de tecilogia são, como sempre foram, arraigadas no cérebro e dificilmente podem ser removidas; e enquanto aí estiverem, a verdade genuína não encontrará lugar.” Era ele um grande vidente, um grande pioneiro do conhecimento psíquico e sua fraqueza reside naquelas mesmas palavras que escreveu. (DOYLE, 2014).



     Em suma, tendo em vista que já em Swedenborg os anjos eram almas evoluídas e demônios defuntos espiritualmente degradados, o resultado da condição post-mortem tratar-se-ia dos atos feitos durante o decorrer da vida, através de suas conversas com o além, ele "preparou o terreno para o que viria a ser chamado de espiritismo" (DEL PRIORE, 2014, p.26).



REFERÊNCIAS


DEL PRIORE, M. Do outro lado. São Paulo: Planeta, 2014.


DOYLE, A. C. História do Espiritismo. São Paulo: Auth, 2014.


GIOVETTI, P. Conhecer a parapsicologia; os fenômenos do paranormal. São Paulo: Paulus, 1994.


KARDEC, A. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Brasília: FEB, 2000.


____ A gênese: os milagres e às predições segundo o espiritismo. 53. ed. São Paulo: Ide, 2008.


___ O que é o Espiritismo. 56. ed. Brasília: FEB, 2020.


___  O céu e o inferno : a justiça divina segundo o espiritismo. -- 2. ed. -- São Paulo : Mundo Maior Editora, 2013.



MUSSO, J. R. En los limites de la psicología. 2. ed. Paidós, 1965.


ROCHA, C. Estudo sistematizado da doutrina espírita. 2. ed. Brasília: FEB, 2019.


SWEDENBORG, E. Del cielo y el infierno. Madrid: Siruela, 2002.


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