UNIDADE NA DIVERSIDADE OU A HISTÓRIA DE UMA DIVERSIDADE DESUNIDA?

 "Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não resistirá" (Mt XII, 24).



O atual cenário da Umbanda se mostra dependente do subjetivismo de seus praticantes, uma vez que, é inviável ao praticante excluir tal ou tal prática dizendo que esta não pertence à religião de que é adepto. Partindo do princípio apresentado no Evangelho é possível formular que há algo incerto quando se possui divergências internas. Jesus Cristo, citado acima, grosso modo é sincretizado na Umbanda como a segunda qualidade de Oxalá; a primeira, neste caso, tem relação com Deus Pai (Cf. Ademir Barbosa, Curso Essencial de Umbanda, Universo dos Livros, 2011, p. 50); i.é., é um personagem de suma importância. W. W. Da Mata e Silva, propagador da Umbanda Esotérica, chega a considerar seus irmãos umbandistas como "irmãos em Cristo" (cf. Umbanda do Brasil, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro & São Paulo, p. 15). Seu ensino, por conseguinte, possui um grau considerável. A despeito dos pontos de concórdia -- e. g., a existência dos Orixás --, há mais divergências que doutrinas objetivas; por exemplo, no que se refere à origem dos Orixás, isto é, se são seres ancestrais divinizados ou se nunca foram encarnados, etc., pois que é um assunto ainda "sem consenso [para eles]" (Cf. Ademir Barbosa, op. cit..., p. 20). E, consequentemente, isso pesa muito.


A princípio, a religião de Umbanda se apresenta com tal problema desde sua origem; porquanto, com efeito, um de seus princípios pressupõe a não existência de dogmas e, portanto, de verdades objetivas. Leal de Souza -- considerado o primeiro autor umbandista -- que foi discípulo de Zélio de Moraes, já relatava o que se passava em sua época, a saber: "Consideram alguns [os chefes de terreiros], falso espiritismo, o que se pratica fora de certas regras ou moldes, e como os processos variam, nos diferentes centros, e cada grupo julga o seu método ótimo e legítimo, esse critério restritivo restringiria o espiritismo verdadeiro a quatro ou cinco núcleos, que cada qual dos crentes diria ser o seu, e os de sua predileção" (cf. O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, ed. Autor: Rio de Janeiro, 1933, Cap. X, p. 26). É mister admitir-se que, no mínimo, existe um subjetivismo evidente quando se analisa o passado. Pois, o princípio regulador de tal balbúrdia é intrínseco a ela e a promove em seu alastramento pelo país. Alexandre Cumino o explicita: "Existem fatores para esse crescimento [o da Umbanda], um deles é a própria natureza da religião, que dá muita liberdade de ação, palavra e pensamento a seus adeptos; NÃO POSSUI DOGMAS [...]" (Cf. História da Umbanda. São Paulo: Madras, 2015, p. 194). Patrícia Birman, outra personalidade insuspeita, já tinha observado tal fato antes de Cumino, a saber: "A Umbanda mais praticada, que se dissemina sem nenhum controle, é essa - MISTURADA, que não dá importância à pureza, seja esta de cunho moral, com a pretensão de impor códigos doutrinários, seja de caráter ritual" (cf. BIRMAN. Patrícia. O que é Umbanda. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 80; 90-93; apud. CUMINO. Alexandre. História da Umbanda, p. 85 [destaques nossos]). José Maria Bittencourt, também conhecido Babalorixá, escreveu o mesmo parecer de seus citados predecessores: "Tendo tido oportunidade de assistir a trabalhos executados em diversos Terreiros Umbandistas, pude verificar a lamentável disparidade existente nos diversos setores da nossa querida religião" (cf. No Reino dos Exus, Pallas: São Paulo, 2004, p. 99). Tanto os trabalhos quanto os princípios demonstram tal ponto.



Com efeito, o ilustre Aluízio Fontenelle pôde, em seu tempo, fazer a seguinte observação: "Cogitou-se e cogita-se ainda hoje, da unificação das correntes espíritas, para um benefício maior, em proveito da humanidade sofredora, porém, impossível se tornará solucionar esse problema, em virtude da descrença, da luta entre as classes sociais, enfim: da desunião existente entre os componentes das três classes classes: Kardecismo, Umbanda e Quimbanda; pois, cada uma julga ser melhor que as outras" (Cf. O Espiritismo no conceito das religiões e a Lei de Umbanda. 3. aEd. Espiritualista, Rio de Janeiro, p. 40). E conclui: "Inúmeras são as contradições existentes entre os próprios praticantes da Umbanda" (p. 65). Quando se observa a trajetória da religião pode-se confirmar tal sentença. Ainda em 1941, no Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda, reunido a fim de unificar a religião, acabou-se por tornar visível o oposto, pois que "os defensores de cada variante de Umbanda acreditam possuir a Verdadeira Umbanda" (Cf. A. Cumino, História da Umbanda, op. cit., p. 200). Ora, quando se analisa cada discurso apresentado ao Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda vê-se claramente a divergência entre uma tenda e outra. O Sr. Diamantino Coelho Fernandes argumentou em sua tese, por exemplo, que a Umbanda provém da Índia. Contudo, o Sr. Baptista de Oliveira dissertou ser tal religião mais um dos frutos, não dos Vedas, mas sim dos antigos egípcios. Se passarmos do Primeiro Congresso (1941) comparando-o com o Segundo (1961) sem nem precisar aludir ao Terceiro e último (1973), será inevitável concluir que sua intenção inicial -- i. é., a unidade --, não alcançou seu fim. Pois, o Primeiro Congresso afirmou que a Umbanda provinha da Índia (tese apresentada e aceita); além do mais, ensinou que o termo "Umbanda"  tratava-se de um termo sânscrito. Porém, o Segundo Congresso, a nível de esclarecimento, corrigiu seu predecessor afirmando ser a Umbanda uma religião brasileira e seu termo usual de origem quimbundo (Idem, pp. 213-4). Contradição evidente. Embora os congressistas estivessem interessados na união de sua crença, ela indubitavelmente não foi alcançada. Alexandre Cumino expôs, colocando também a si mesmo em questão, a seguinte realidade: "Há quem defenda um 'tipo ideal' de Umbanda, descartando outras formas de praticá-la; assim, alguns reconhecem e outros negam as várias Umbandas. Creio que podemos trilhar o caminho do meio [...] desde que não desvirtuem seus fundamentos [os da Umbanda] básicos" (Idem, p. 83). De fato, para Iassan Ayporê Pery quem pratica sacrifício animal em rituais não é umbandista (cf. Umbanda: mitos e realidades, ed. Autor: Niterói, Rio de Janeiro, 2008):

"Pergunta: Vocês sempre falam que na Umbanda não existe o sacrifício de animais, mas já fui em terreiros de Umbanda onde isto acontece. E aí? Não são terreiros de Umbanda?

Resposta: Não. Não são terreiros de Umbanda. O que sempre afirmamos é que a Umbanda anunciada e fundada como culto pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas, não tem sacrifício de animais, e é com esta corrente de pensamento que nos afinamos e seguimos. O que precisa ficar claro é que terreiro que tem em seu fundamento o sacrifício de animal, seja para iniciações, seja para descarrego, seja para oferendas, seja para qualquer outra coisa, não é terreiro de Umbanda, mas sim de outra forma de culto, que não me cabe aqui discorrer sobre. O que deve servir de norte ao estudarmos a Umbanda e freqüentarmos um terreiro é a seriedade da Casa e o quanto somos afim com seus preceitos e formas de culto. Não estou criticando quem faz sacrifícios de animais, estou apenas estabelecendo limites e premissas básicas, aliás, já estabelecidas pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas" (p. 88). 

Todavia, era precisamente tais sacrifícios que Tancredo e Byron recomendavam: "antes de se abrir um terreiro, e para evitar o mal visível e invisível que possa perturbar os trabalhos, reforça-se os guardiães de acordo com o preceito, isto é, dá-se o miamimi (farofa amarela), um quico (galo), agé (galinha), menga de quicó (sangue de galo) etc [...]" (cf. Guia e Ritual para organização de terreiros, 7a. ed. ECO, 1972, p. 37). 


A despeito da explicação de tal contradição por meio da tradição particular de cada casa de Umbanda ser apresentada como uma solução à questão, tal não procede. O sacrifício animal é um ponto de divergência claríssimo, mesmo que se conceda tal distinção (de que há tradições díspares -- e. g., Umbanda de Angola, Branca e Omolokô, etc). Pois ainda se trata da mesma prática religiosa e esta resposta à questão apenas comprova que cada terreiro acaba por ditar, levando em conta sua tradição ou não, o que é ou não é espiritismo de Umbanda, conforme o já citado Leal de Souza e as palavras de Pery; algo intrínseco, portanto. A prova mais gritante disso está em sua especulação espiritual. É comum, na Umbanda, se falar em "magia" (Não entraremos no mérito quanto ao que se entende pelo termo). O criticado, mas influente Rubens Saraceni, afirma que "tudo é mágico na Umbanda" (Cf. Rituais Umbandistas. São Paulo: Madras, 2007, p. 7) e Felipe de Campos endossa dizendo que "[...] a umbanda [como] todos sabemos é uma religião totalmente magística, que usa de artifícios e elementos para que a magia de umbanda seja feita [...]" (Cf. Umbanda: a religião dos Mistérios, ed. Autor, 2014, p. 24). Destarte, em Leal de Souza, que já aludimos, existe uma "Linha Branca de Umbanda" (boa) e uma destinada à magia negra (que trabalha com Exus - logo com eles? -, conforme fica claro em seu relato), a qual é para fins maléficos [veja-se os capítulos XIV e XV de seu "Espirtismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda", Rio de Janeiro, 1933]; Lourenço Braga entende que isso muda apenas em seus termos, tornando-se um problema linguístico, mas na essência passa o ensino da mesma forma ("Lei de Umbanda: Espiritismo - Magia Branca; Lei de Quimbanda: Espiritismo - Magia Negra", in Umbanda e Quimbanda, 1941, p. 9; apud. CUMINO. Alexandre. História da Umbanda, São Paulo: Madras, 2015, p. 70); para José Maria Bittencourt este cenário é algo real ("A Umbanda é o lado positivo, o lado bom da vida espiritual, que conduz seus filhos pela estrada do bem até à presença do Supremo Mestre. A Quimbanda é o lado negativo, o lado oposto, com seus dogmas falsos, tendo à sua frente o senhor absoluto das trevas -- sua Alteza, Lúcifer, também conhecido como O Anjo Belo", No Reino dos Exus, 6. ed. Pallas: São Paulo, 2004, p. 14); e, principalmente, para Aluízio Fontenelle isso é um fato característico de sua crença (cf. EXU, 2a. ed. Aurora: Rio de Janeiro, 1952, Part. III, cap. X, p. 83.: "[...] de fato existe nas diversas práticas do Espiritismo [de Umbanda...] as entidades do mal que com a denominação de EXUS - nas Leis de Umbanda e Quimbanda -, representam o que os Católicos, Protestantes, etc., chamam de Demônios ou Anjos Maus, e que na Doutrina de Kardec são chamados de Espíritos Maus [também conhecidos como obsessores] invocados nos trabalhos de MAGIA NEGRA"); para Alexandre Cumino, todavia, "não há uma 'Umbanda negra' ou uma 'Umbanda ruim'; - pois, segundo ele -: todas são boas [sic]" (Cf. História da Umbanda, Madras: São Paulo, 2015, p. 83). E a confusão apresenta-se como inegável.


Dessa forma, torna-se visível que a religião de Umbanda compreende diversos sistemas que, por sua vez, se confundem intrinsecamente de maneira indubitável e estão sujeitos às crenças das casas em particular na maioria das vezes; além disso, tais casas propõem doutrinas e práticas que sob o véu do tempo vêm à inexistência ou simplesmente deixam de fazer parte da religião. Portanto, não há um desenvolvimento orgânico e, em suma, este quadro dá-se pelo desprezo aos dogmas de per se; assim, no máximo, há união em discordar. 




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