Uma análise aos fenômenos supostamente espíritas à luz da descrição de Leal de Souza

 




O Dr. Leal de Souza, em sua obra "Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda"[1], expõe alguns fenômenos mediúnicos que, para ele, têm por causa eficiente os espíritos desencarnados. Souza é considerado o primeiro autor umbandista, pois em 7 de Janeiro de 1924, no jornal "A Noite" (do Rio de Janeiro) começou a relatar sobre o que presenciava nas "macumbas cariocas" e, principalmente, na Tenda Nossa Senhora da Piedade de Zélio de Moraes usando o termo "Umbanda" [2]. Está-se lidando, pois, com alguém de suma autoridade.


Com efeito, o autor começa de forma curiosa a tratar do assunto nesta obra. Sobre a causa, diz ele: "O feiticeiro é um trabalhador empírico. Desconhece as causas, em seus fundamentos, e conhece os efeitos, em seus resultados" (p. 34). É evidente que, portanto, o feiticeiro desconhece qualquer das causas dos próprios fenômenos que vê à sua frente. Os efeitos, i. é., toda "manifestação mediúnica" é o que lhe compete. Isso significa algo peremptório. Assim, Souza começa sua descrição a partir do tabuleiro Oija, do copo girante e da prancheta, afirmando:
"Quase todas as famílias, ainda as que não são espíritas, conhecem e não raro efetuam as experiências do copo, da prancheta, ou da mesa. As duas primeiras se assemelham [...]. O ESPÍRITO, por incorporação incompleta, ou pela posse e domínio parciais dos órgãos necessários, IMPULSIONA o braço do médium, conduzindo o copo ou a prancheta às letras precisas para a formação das palavras tradutoras do seu pensamento. Mas o mais aconselhável, por dar menos motivos às dúvidas, é o espírito operar somente com os fluidos do médium, que pode ficar de olhos fechados acompanhando-o, porém, com o braço, os movimentos do copo ou da prancheta que lhe levam a mão, orientando-a. Mas, em circunstâncias favoráveis, sendo homogênea a corrente de pensamento, a prancheta e o copo se movem e deslocam, atingindo as letras, sem contato das mãos do médium" (p. 21). É realmente notável, porquanto a causa já é conhecida, mas fictícia. Em primeiro lugar, "a ciência não aceita a ideia de fluido vital, na forma como o Espiritismo ensina" [3], e que, por sua vez, nosso autor concorda sem ressalvas [4]. Ademais, os movimentos inconscientes dos vivos (sic) explicam tais fenômenos:

"A Ouija Board e a Planchette, tão conhecidas e usadas por muitos, e que a tantos têm deixado presa de terror, por não poderem explicar o fenômeno senão por intervenção pretenatural, não são senão uma forma [inconsciente] de escrita automática. Somente que o caso da Ouija (das palavras francesa "Oui": sim; e alemã "Ja": sim; isto é, "Sim, sim") a mão não escreve, mas por movimentos automáticos leva de um lugar a outro uma mesinha de três pés em forma de coração, soletrando as palavras. A princípio, enquanto o operador não conhece praticamente o lugar que cada letra ocupa na mesa principal, trabalha dificultosamente, mas quando já aprendeu bem o lugar de cada letra (o que se dá com as estenógrafas que escrevem sem olhar para o teclado, ou com as pianistas), escreve, isto é, move-se com crescente facilidade. A Planchette, que tem um lápis na extremidade de uma plataformazinha móvel, é uma forma mais clara de escrita automática, visto que o lápis escreve diretamente, não colocado entre os dedos como usualmente, mas aderido à mesinha sobre a qual se colocam as mãos, de modo que, movendo-se estas automaticamente, fazem com que o lápis escreva. Apesar de serem os sonhos um fenômeno tão comum, não falta [a eles também] quem em determinadas circunstâncias os atribua aos espíritos"[5]. Por conseguinte, é inviável a recorrência aos espíritos enquanto explicação de tais fenômenos.  


Além disso, expondo suas pesquisas com tendência à imparcialidade, segundo ele mesmo, Leal de Souza finda por entregar-se às mesas flutuantes. Expõe tal fenômeno como algo incontestável, chamando-o de "prova"; e, consequentemente, torna-se uma prova para ele, isto é, dos fenômenos ditos espíritas, a saber: 


"Nas experiências com a mesa, geralmente a volatilização dos fluidos do médium se faz pela região do plexo solar e, sem perder a ligação com o aparelho humano, se condensa numa coluna que se apóia no solo e sobe, levantando a mesa. A energia desses fluidos, conforme a constituição do médium, alcança a sua potencialidade máxima, num período que varia entre cinco e quinze minutos. Quando fiz pesquisas dessa natureza para estudar os trabalhos fluídicos dos espíritos que se apresentam como sendo de caboclos e pretos obtive demonstrações interessantes. Sabeis, perguntou-me uma vez o guia, “que no corpo humano há um elemento, propriedade, essência, ou fluido, que desintegrado dele tem mais força do que o próprio organismo integrado”? - Teoricamente, respondi. Chamou um dos médiuns, uma moça franzina de 21 anos, e mandou-a colocar as mãos sobre uma mesa para dezesseis pessoas, que em menos de dez minutos se elevou a altura tal, que o médium, para não perder-lhe o contato, teve de erguer os braços e ficar quase em pontas de pés. Concluída essa fase da prova, mandou o guia o mesmo médium levantar a mesa com os braços, naturalmente, e a senhorita, não obstante os seus esforços, só lograva alçar-lhe numa das cabeceiras, ou um dos lados, mas nunca o todo" (p. 22).

Na verdade, trata-se de uma explicação tendenciosa e nada imparcial. Porquanto, ao atribuir a fluidos de espíritos de vivos e de mortos o que seria a causa da dança ou da levitação dessas mesas, está-se cometendo um absurdo à luz da falta de provas suficientes -- que não são aquelas que convencem nosso autor --; o que, além do mais, em nenhum momento são por ele apresentadas. Facilmente demonstrável. Os fluidos, supostamente utilizados pelo médium e seus congêneres, como já se disse, não têm nada de científico. Logo, são irrelevantes para nossa discussão. Conseguintemente, o movimento das mesas não necessita da hipótese (sic) espírita, uma vez que, Charles Richet já o tinha explicado: "Com toda segurança, a maior parte dos casos não há dúvida alguma de se tratar de movimentos musculares inconscientes"[6]. Tratando do assunto à luz da antiga Metapsíquica, Richet também expõe uma outra explicação do fenômeno pela Telequinesia que, por sua vez, seria uma ação mecânica, distinta das forças conhecidas, mas humana como qualquer outra [7]. Nada de espíritos. Contudo, não se pode esquecer dos velhos truques, que são um particular reino das fraudes no século passado, mormente naquilo que interessou aos espíritas e seus fenômenos na Europa. Em uma breve passagem pelas várias obras de ilusionismo do século passado pode-se facilmente aprender como "levitar" mesas e outras coisas, assim como tornar-se "médium" [8]. Dessa forma, não é mister qualquer suposta hipótese anti-científica; quer seja através de supostos fluidos magnéticos de mortos (e vivos, em conjunto) ou não, para sua explicação, porque é uma questão própria de vivos. E talvez fosse esse o medo prévio de Allan Kardec quando afirmou: "Tanta puerilidade haveria em se querer ver todo o Espiritismo numa mesa girante, como toda a Física nalguns brinquedos de criança" [9]. 

Dando prosseguimento à sua experiência, Leal de Souza apresenta algo mui recorrente. Embora, frise-se, não tenha relação direta com sua Lei de Umbanda e Demanda, como a descreve, porque esta desfaz tais "coisas-feitas", segundo ele:

"As entidades espirituais que realizam esses trabalhos [de magia negra] possuem sinistra sabedoria, recursos verdadeiramente formidáveis, e energia fluídica aTerradora. Um desses espíritos tem se prestado à experiências, não só diante de conhecedores do espiritismo, como perante pessoas de brilho social no círculos da elegância. Assim, tomando o seu aparelho, isto é, incorporando-se ao seu médium, faz triturar com os dentes, sem ferir-se, cacos de vidro. Caminha, de pés descalços, sobre um esTendal de fundos de garrafas quebradas, sendo que, por duas vezes, convidados, levaram as garrafas e as quebraram, aguçando lâminas pontudas para o passeio do médium" (p. 37).


Mais à frente, na história da religião, Tancredo da Silva, expoente ds tradição omolokô, expôs um relato análogo àquele apresentado por Souza, a saber:


"Na Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922, apresentou-se um quimbandeiro famoso, o “Pisa-Brasa”, que dançava descalço sobre uma chapa de ferro ardente, para mostrar sua fôrça espiritual. Os jornais da época comentaram muito o caso" [10]. No mínimo uma cena curiosa. Porém, saindo do campo da superstição, o estado hipnótico responde ambos os casos. A psicóloga Magda B. Arnold esclarece: 

"Se o hipnotizador se der ao trabalho deprescrever em detalhes o que seu sujeito deve sentir [sic], fazer e providenciar uma experiência consistente, o sujeito acabará por excluir todas as atividades que não sejam expressamente permitidas. Barber, por exemplo, mostrou que sujeitos hipnotizados andam em volta de uma cadeira ou desviam os olhos dela, mas não se chocam com ela, se apenas lhes for dito que a cadeira não está ali. Mas quando o hipnotizador torna sua afirmação verossímil, pegando a cadeira e levando-a para fora da sala enquanto seus olhos estão fechados e em seguida, trazendo-o de volta silenciosamente, eles darão todas as evidências de serem incapazes de ver a cadeira. Eles olharão e entrarão com os olhos abertos" [11]. Destarte, por sugestão, própria (auto-sugestão) ou de outrem (hipnotizador), é totalmente possível ao personagem em questão que não sinta absolutamente nada, embora reclame de machucados através daquilo que faz, conforme o primeiro caso. Tratando-se, portanto, de algo natural, necessário é que se exponha sua irrelevância a fim de demonstrar "forças espirituais", como no segundo caso, visto que, é sobretudo explicável por meio de sugestão. Não se pode, além disso, excluir a possibilidade do truque. 




Em suma, todos os casos aludidos por Leal de Souza não demonstram que a hipótese espírita, que se mostra apressada demais, pelo pouco avanço de seu tempo ou não, esteja correta tanto naquilo que lhe é primário -- i. é., são fenômenos causados pelo Além-do-Túmulo --, quanto em seu aspecto secundário -- não há outra explicação racional aplicável. Assim, não se pode negar-lhe a inconsistência em seu âmago mais profundo, pois, além de ignorar qualquer explicação natural e imparcial, tende a conceder sua causa à hipótese espiritista, superficial e simplória, porém não absoluta, em relação aos casos relatados.



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[1] Cf. ed. Autor: Rio de Janeiro, 1933.

[2] Cf. CUMINO. Alexandre. História da Umbanda. São Paulo: Madras, 2015, p. 147-8.

[3] Cf. ROCHA. Cecília.Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, São Paulo: FEB, 2019, vol. II, p. 115.

[4] Cf. e. g.: "A Linha Branca de Umbanda e Demanda está perfeitamente enquadrada na doutrina de Allan Kardec e nos livros do grande codificador, nada se encontra susceptível de condená-la". DE SOUZA. Leal. op. cit., p. 86.

[5] Cf. DE HEREDIA. Carlos Maria. As fraudes espíritas e os fenômenos metapsíquicos. Rio de Janeiro: Vozes, Petrópolis, 1949, pp. 230-1.


[6] Cf. RICHET. Charles. Traité de Métapsychique. 5a. ed., p. 514; apud. PALMÉS S. J. Fernando. Metapsíquica e Espiritismo, ed. Vozes: Petrópolis, 1957, p. 160.

[7] Cf. Idem, op. cit., p. 159-60.



[8] Cf. Por exemplo, em "13 Escalones del Mentalismo", p. 284-6.


[9] Cf. KARDEC. Allan. O Livro dos Médiuns, part. I, cap. II, n. 14; Catanduva, SP: Nova Visão Editora, 2020, p. 33. 

[10] Cf. FREITAS & PINTO; Byron Torres de...,  & Tancredo da Silva, As Mirongas de Umbanda, 3ª Edição Coleção Espiritualista – Nº 4, cap. V, 13 [esta obra foi aprovada e adotada oficialmente pela Confederação Espírita Umbandista 1957, Gráfica Editora Aurora, Ltda. Rua Vinte de Abril, n. 16, Rio de Janeiro].


[11] Cf. B. ARNOLD. Magda. Função Cerebral na Hipnose, p. 8 -- https://pt.scribd.com/document/499189132/Funcao-Cerebral-Na-Hipnose-Magda-B-Arnold


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