O PROBLEMA DOS DOIS SENHORES
Há um pressuposto de que é possível conciliar a religião católica com alguma dissidência do espiritismo. Entrementes, tal se mostra falso, a despeito de a prática se apresentar como cotidiana há muito tempo. W. W. Da Mata e Silva escreveu: "Conhecemos muitos católicos-umbandistas, sim porque eles existem aos milhares ou até milhões, que vão à missa, rezam, fazem promessa e pagam, vão batizar os filhos e parentes por lá e até casa-los também... mas se aconselhar, isto é, confessar, lá isso não! Na hora de confessar é mesmo com o Caboclo e Preto Velho na tenda ou no terreiro que eles vão... movidos pela fé ou pela confiança (é claro que estamos nos referindo as Tendas de Umbanda de fato, onde em verdade se pratica a caridade pela caridade)" [1]. A resposta dos Bispos brasileiros saiu e não foi positiva. Em 1953, os Bispos do Brasil disseram que o espiritismo (independente de sua "forma") é o desvio doutrinário “mais perigoso” para o país, uma vez que -- conforme o Frei Boaventura --: “nega não apenas uma ou outra verdade da nossa fé, mas todas elas, tendo, no entanto, a cautela de dizer´se cristão, de modo a deixar , a católicos menos avisados, a impressão erradíssima de ser possível conciliar catolicismo com espiritismo” [2]. É importante frisar que o mesmo Frei Boaventura Kloppenburg esclareceu detalhadamente aos católicos que se misturavam às práticas espíritas e umbandistas através da coleção "Vozes em Defesa da Fé". Pérolas ali existem (e. g. "A Umbanda no Brasil", "O Espiritismo no Brasil", etc, etc). Além disso, para ele, tal reação da Igreja era algo peremptório para o futuro do país. Precisávamos de fato e ainda precisamos.
Com efeito, diversos católicos se aproximam do espiritualismo em suas diversas nuances -- Kardecismo, Umbanda, Jurema/Catimbó -- em busca de consolo e orientação. A ideia de comunicação entre mortos e vivos parece convidar os católicos ao espiritismo mais próximo de sua região dentro do território nacional. Não obstante, faz-se necessário entender que tal aproximação torna-se insustentável, seja qual for sua intenção. Pois, não existe "catolico-espírita", "católico-umbandista" ou "católico-juremeiro". Não negamos que exista muita sinceridade em quem o faça, mas a ignorância sobre seu erro também é um fator que acaba ajudando-o para que isso aconteça. Segundo Dom Boaventura, "quanto à cultura dos médiuns [umbandistas], a impressão geral dos nossos informantes foi de que é ínfima e mínima; que 99% são totalmente ignorantes, altamente ignorantes. Mas convencidos. Muitos não sabem nem ler ou apenas conseguem assinar o nome. Quando dão os passes falam um português todo arrebentando e desculpam-se dizendo que falam assim forçados pelos espíritos (que, aliás, todos falam português!)" [3]. Para Dom Estêvão Bittencourt O. S B., "o inconsciente, a sugestão e uma grande sensibilidade são, portanto, os principais fatores que explicam os fenômenos mediúnicos. O inconsciente é um enorme repertório de imagens, sons e experiências latentes no ser humano; está sujeito a ser ativado pela sugestão de que o médium vai receber um espírito do além e, por isto, terá que representar um papel condizente com tal incorporação. Não há fenômeno mediúnico nenhum que não possa ser explicado pela parapsicologia, de modo que é falso recorrer a intervenções do além para compreendê-los" [4].
Ademais, existem diversos contrastes doutrinários entre as crenças católica e espírita que não coadunam e trazem problemas à prática de seus adeptos. Um exemplo disso é a crença em magia que é uma injúria à soberana independência e transcendência de Deus e aos seus direitos exclusivos de criar, revelar, fazer milagres e santificar os homens ou a questão da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Igreja Católica acredita firmemente que Cristo é Deus, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade [5]. No Espiritismo, todavia, Jesus é um homem evoluído, e que não passa disso, pois seus milagres são apenas "fenômenos naturais" [6]. Não é Deus, portanto. Na Umbanda, Jesus foi sincretizado com Oxalá. Mas Oxalá não é Deus, é Orixá e segunda qualidade de Olorum, que é Deus [7]. No Catimbó/Jurema, não se pode perceber nenhuma divindade atribuída a Jesus Cristo. Segundo tal crença, existem várias "Cidades da Jurema" que são os lugares em que as divindades e entidades habitam. É verdade que há muito segredo sobre isso; isto é, os praticantes não costumam dizer quem lá habita. De qualquer modo, para eles, é Malunguinho -- e não Cristo conforme São Paulo -- quem "sustenta o cosmo do mundo encantado das Cidades e do mundo dos viventes na terra" [8].
Portanto, esse costume de adições religiosas à religião católica fundado na falta de bom senso e caridade com a verdade trata-se de um erro. E muito caro. Principalmente, aos adeptos de sua percepção da vida religiosa "popular". Quer seja tal visão inocente ou não: necessita de correção, em pessoa, através do Sacramento da Penitência e, consequentemente, do abandono às práticas errôneas, mas tão difundidas pelo país, à luz da fé ortodoxa.
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Referências.
[1] Cf. DA MATA E SILVA. W. W. Segredos de Magia de Umbanda e Quimbanda, 1952, p. 18.
[2] Cf. KLOPPENBURG. Boaventura. Espiritismo, orientação para os católicos, Ed. Loyola, 5ªed, 1995, p. 11.
[3] Cf. ___ A Umbanda no Brasil, Ed. Vozes: Petrópolis, 1960, p. 102.
[4] Cf. BITTENCOURT. Estêvão. https://www.padrereginaldomanzotti.org.br/artigo/espiritismo-por-que-nao-sou-espirita-dom-estevao-bettencourt/
[5] Cf. Catecismo da Igreja Católica, §258.
[6] Cf. KARDEC, Allan. Obras Póstumas, I, 2 -- 21. Ed. Federação Espírita Brasileira: Brasília & Rio de Janeiro, 1985, p. 126.
[7] Cf. BARBOSA JÚNIOR. Ademir. Curso Essencial de Umbanda. Ed. Universo dos Livros, São Paulo, 2011, p. 50.
[8] Cf. DE OLIVEIRA. Alexandre Alberto. [L'OMI L'ODÒ], Juremologia: uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada, Unicap, Recife, 2017, p. 187.



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